Poesia é risco em Constança Lucas
Lau
Siqueira
A poesia se revela
sempre despida e vestida por todas as linguagens. Quando menos
esperamos, lá está ela. E é algo que nos espeta as áreas de
abandono do coração e da mente. Poesia é, na verdade, o elemento
condensador de todas as linguagens. Uma arte que é o pulsar da existência
humana na sua total densidade. É esse o meu olhar sobre a poesia que
habita o traço desta artista nascida na lusitana Coimbra que, para
sorte dos brasileiros, decidiu colocar seu atelier e sua morada em
algum lugar da imensa São Paulo. De lá ela faz arte para o mundo.
Circula seu trabalho em diversos países. Tem publicação em catálogo
e participou de exposição, por exemplo, na Coréia, no Japão. Isso
nos mostra o peso da poesia enquanto linguagem, em qualquer outro
suporte, seja estético, seja estilístico, seja humano.
As imagens concebidas por Constança
Lucas têm algo de palavra não silenciada. O não dito é
mostrado. Cada expressão calcula o espaço pela delicadeza e pelo
peso do braço da resistência às culturas que não dialoguem com a
atemporalidade da arte. O detalhe do provocado e do ato suprimido.
Tudo isso leva o leitor da obra visual dessa artista a uma leitura da
palavra pétala quando o desenho é arbusto. Ou seja, há uma lírica
paisagem por trás de um diálogo profundo com a existência, com as
causas humanistas e de paz. É desta forma que Constança Lucas
dialoga com o mundo. Trafegando de forma libertária entre o abstrato
e o figurativo. É a “poesia como objeto do olhar”, conforme o
baiano Almandrade classifica a Poesia Visual.
As cores são delicadamente escolhidas.
Quando não é o preto que domina sobre um branco imponente, compondo
o cenário vivo da criação. Sentimos que a artista persegue algo que
talvez possamos chamar de transposição do cotidiano e do épico.
Tudo num mesmo tempo/espaço do branco/leque de sensações quentes,
úmidas, doloridas, coloridas, ocas, profundamente vividas. Sobretudo,
na experiência de colher suavidade numa arte que se impõe pela
universalidade e pela capacidade de dialogar com a diferença. Algo
que nos permite continuar sonhando com a realidade, dentro e fora
dela.
Tem participado de salões de artes plásticas
pelo país inteiro e por algumas dezenas de países. Militante ainda
da arte-correio, a artista nos provoca permanentemente o dilema do útil
e inútil, da arte e da vida, do estudo e da criação. É uma
criadora que reflete muito profundamente sobre tudo que produz. Por
isso busca sustentação teórica na academia para suas certezas mais
primitivas. Uma estudiosa dos caminhos da arte no Brasil e no mundo.
Mantém um diálogo vigoroso com a Europa, com países do oriente e
das Américas. Constança
Lucas dispensa apresentações. Sua arte criou seus próprios
espaços, com talento e sapiência.
Uma arte que seduz o imaginário de quem se
permite um olhar sem dolo, num tempo global que não nos permite
conceber uma estética predominante. (Se é que em algum tempo alguma
foi.)
Constança
dialoga muito bem obrigado com a tradição e com a modernidade. Sua
arte comunica numa perspectiva futurista. Ela reconhece todas as
linguagens nos duelos da luz com as sombras. Fator de risco imprescindível
para uma arte íntegra e integral. Uma arte que não se poupa diante
da beleza e não se rende aos modismos. Uma arte que despe e conduz o
espetáculo de um cotidiano rico em plasticidade. Algo pulsante,
vibrando as artérias de um público que sente o que pensa.
Ou seja: não se trata de uma relação glacial com
quem a observa atentamente. A arte de Constança
Lucas nos provoca calorosos debates íntimos sobre as
percepções de infinito que existem nas impermanências conceituais.
No entanto, algo longe do que se poderia classificar como diluição.
Sobretudo porque é de uma suavidade que estilhaça nosso senso de
transgressão. Ela constrói metáforas em traços. Seja com lápis,
pincel ou mouse.
Constança Lucas construiu uma trajetória na arte que se
sustenta com os próprios pés. Uma trajetória que não desperdiça a
acelerada pontuação das horas no dia que passa. É uma artista que
sabe reconhecer seus mestres. Sabe respeitar a história dos seus
iguais e dos ícones das artes no mundo. Sua aparente calma é um
eterno movimento. Uma volúpia de uma arte viva presente nos salões,
nas galerias e nos espaços alternativos que ainda abrem suas portas
para um conceito de grande arte que passa, diretamente, pela construção
de uma identidade, de um estilo absolutamente singular. Assim penso a
arte de Constança Lucas,
cujo nome no Google, apresenta uma fartura de belas imagens que vale a
pena conferir. É a poesia em estado de risco!
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Lau Siqueira